The Blood of Dawnwalker é um daqueles jogos em que as influências são muito fáceis de identificar. Há bastante de The Witcher 3 em seu DNA — algo nada surpreendente considerando o histórico da equipe da Rebel Wolves —, mas reduzir o jogo a uma espécie de “The Witcher com vampiros” seria injusto.
Depois de terminar minha jornada no PS5 Pro, o que encontrei foi um RPG ambicioso, com ótimos personagens, decisões realmente interessantes e algumas ideias que eu gostaria de ver sendo exploradas novamente no futuro. Nem tudo funciona perfeitamente e ainda existem arestas técnicas evidentes, mas, para uma estreia dessa magnitude, a Rebel Wolves conseguiu entregar um RPG que merece atenção.
História e narrativa
A história acompanha Coen, um jovem transformado em Dawnwalker: humano durante o dia e vampiro durante a noite. Sua missão principal é salvar sua família das mãos de Brencis e dos vampiros que assumiram o controle de Vale Sangora.
O prólogo é excelente e rapidamente estabelece tanto o drama pessoal de Coen quanto a brutalidade desse mundo.
Mas o que mais gostei não foi necessariamente a premissa. Foi a maneira como o jogo permite que você construa o caminho até seu objetivo.
Você tem 30 dias e 30 noites para resolver a situação, e determinadas ações e missões consomem parte desse tempo. Não existe um relógio correndo enquanto você simplesmente explora o mapa; o jogo informa quando determinada decisão fará o tempo avançar.
Isso cria uma dinâmica muito interessante porque várias missões que em outro RPG seriam tratadas simplesmente como conteúdo secundário podem acabar contribuindo diretamente para seu objetivo principal.
Eu gostei bastante dessa estrutura.
Por outro lado, a pressão causada pelo limite de tempo acaba sendo menor do que parece inicialmente. Existe uma quantidade razoavelmente confortável de tempo para fazer muita coisa, algo também observado por outras análises.
Ainda assim, as decisões têm peso, os personagens são muito bons e existem momentos em que você realmente precisa pensar nas consequências do que está fazendo.
É facilmente uma das melhores partes do jogo.
Gameplay
Aqui provavelmente estará a parte mais divisiva de The Blood of Dawnwalker.
O combate utiliza um sistema direcional no qual ataques e defesas podem vir de diferentes posições. Existe um pouco daquela sensação de Kingdom Come: Deliverance, mas adaptada para um RPG de ação sobrenatural.
No começo eu gostei bastante.
Você precisa observar o inimigo, defender, encontrar aberturas e atacar na direção correta. E conforme novas habilidades entram na equação, principalmente os poderes relacionados à condição de Dawnwalker de Coen, existe uma boa quantidade de possibilidades.
A diferença entre dia e noite também vai além da estética. Coen possui características diferentes dependendo do período, reforçando a ideia de que estamos controlando alguém preso entre dois mundos.
O problema é que o combate não evolui na mesma proporção que o restante do jogo.
Depois que você entende o timing das defesas e ataques, muitos confrontos começam a seguir uma estrutura parecida. Isso fica ainda mais evidente pela variedade relativamente pequena de inimigos. Essa repetição também foi um dos problemas mais recorrentes apontados nas reviews que consultei.
Não achei o combate ruim. Pelo contrário: quando tudo funciona, ele é bastante satisfatório.
Só acho que um RPG dessa duração precisava apresentar mais situações capazes de obrigar o jogador a mudar sua estratégia.
Mundo, exploração e conteúdo
Vale Sangora talvez seja uma das maiores qualidades do jogo.
E aqui existe uma decisão que gostei muito: o mapa não precisa ser gigantesco para funcionar.
Em vez de criar um mundo enorme recheado de atividades genéricas, a Rebel Wolves apostou em uma região relativamente compacta e bastante densa.
Existem cavernas, criaturas, vilarejos, tesouros, personagens, mistérios e acontecimentos que você pode simplesmente encontrar explorando. Algumas descobertas aparentemente pequenas podem iniciar linhas inteiras de missões e eventualmente se conectar com personagens ou acontecimentos importantes.
Isso fez com que eu tivesse vontade de explorar sem sentir que estava simplesmente limpando ícones de um mapa.
Também gostei muito de como o sistema de tempo conversa com essa exploração. Você constantemente pensa se vale a pena seguir determinado caminho agora ou dedicar algumas horas a outra investigação.
Nem todo conteúdo mantém o mesmo nível de qualidade. Existem atividades que eventualmente entram naquele padrão conhecido de RPG de mundo aberto, e algumas acabam se repetindo mais do que deveriam.
Mesmo assim, o saldo é extremamente positivo.
É um mundo que recompensa curiosidade.
Gráficos e direção de arte
Joguei The Blood of Dawnwalker inteiro no PlayStation 5 Pro, e visualmente o jogo tem momentos espetaculares.
A direção de arte é o verdadeiro destaque.
Vale Sangora consegue ser bonita e desconfortável ao mesmo tempo. Vilarejos medievais, florestas, castelos, cavernas e principalmente os ambientes durante a noite combinam perfeitamente com a temática vampírica.
A iluminação da Unreal Engine 5 também proporciona cenas realmente impressionantes.
No PS5 Pro existem três opções principais: Performance, mirando 60 FPS; Balanced, mirando 40 FPS; e Quality, mirando 30 FPS.
Minha preferência foi pelo modo Performance.
O combate se beneficia bastante da maior fluidez e, de maneira geral, achei a experiência boa no Pro. Porém, não estamos falando de 60 FPS absolutamente travados. Existem quedas em áreas mais pesadas e problemas de frame pacing, especialmente em algumas cutscenes. Análises técnicas também colocam o PS5 Pro como a versão de console mais estável, embora ainda longe da perfeição.
Também existem pop-ins, algumas animações estranhas e pequenos bugs visuais.
É justamente essa falta de polimento que impede a parte técnica de acompanhar a excelente direção artística.
Porque artisticamente, The Blood of Dawnwalker é fantástico.
Áudio, música e dublagem
O trabalho de áudio ajuda muito na construção de Vale Sangora.
Florestas, vilarejos e ambientes fechados possuem uma ótima ambientação sonora, e durante os combates os impactos das armas e criaturas conseguem transmitir bastante peso.
A trilha sonora segue muito bem o clima medieval sombrio sem precisar aparecer o tempo inteiro.
Mas o grande destaque para mim são as vozes dos personagens.
O elenco consegue vender muito bem os diálogos, e isso é fundamental em um RPG tão dependente de conversas e escolhas. Outras análises também destacaram a qualidade das interpretações, incluindo a atuação de Will de Renzy-Martin como Coen.
Os personagens parecem pertencer àquele mundo, e as boas atuações ajudam bastante até mesmo algumas conversas menores.
Não é necessariamente uma trilha que vou terminar o jogo e ficar ouvindo separadamente, mas dentro da experiência ela cumpre muito bem seu papel.
Veredito
The Blood of Dawnwalker não é perfeito. O combate poderia evoluir mais, existe pouca variedade de inimigos e a parte técnica ainda precisa de algumas atualizações, inclusive no PS5 Pro. Mas quando olho para a experiência completa, essas falhas não apagaram aquilo que o jogo fez de melhor. Gostei muito de Vale Sangora. Gostei dos personagens. Gostei da liberdade para decidir como avançar na história e principalmente da sensação de que minhas escolhas estavam construindo a minha própria jornada, em vez de simplesmente seguir uma sequência predeterminada de missões. A mecânica dos 30 dias poderia exercer mais pressão sobre o jogador, mas ainda considero uma ideia muito interessante e que combina perfeitamente com a estrutura das quests. E existe algo que pesa bastante na minha avaliação: esse é o primeiro jogo da Rebel Wolves. Para uma estreia, é um projeto extremamente ambicioso. É impossível não perceber algumas influências de The Witcher 3, mas The Blood of Dawnwalker consegue construir personalidade suficiente para não viver apenas à sombra dele. Com mais variedade de inimigos, evolução maior do combate e principalmente mais polimento técnico, eu poderia facilmente estar falando de um dos melhores RPGs desta geração. Do jeito que chegou, ainda é um excelente RPG e uma estreia que me deixou muito interessado em acompanhar o futuro da Rebel Wolves.
Review escrita por
Willians Ferreira
